Guaranis - SC


Santa Catarina tem 28 áreas indígenas que ocupam 0,8% do território estadual. Em quatro delas, a Procuradoria Geral do Estado (PGE) questiona na Justiça a demarcação – enquanto isso, as comunidades vivem a angústia da perda do espaço físico e referências. Muitas delas aguardam há mais de 20 anos as demarcações.

Pressões para desmantelar as terras indígenas partem de vários lados. Uma CPI na Assembleia Legislativa contra a Funai, que colocaria em questão a demarcação da terra Guarani, foi movida por um parlamentar local favorável ao interesse dos latifundiários. Veículos de imprensa da região somam-se a estes numa campanha de demonização, desqualificação e deslegitimação da imagem dos índios.

Uma das três etnias que ocupam o estado, os Guarani têm a situação a mais delicada. São cerca de 1,6 mil em 21 comunidades, sendo que três aldeias partilham terras com Kaingang (Aldeia Toldo e Bugio na TI Ibirama La Klãno). Os Guarani de Cunha Porã e Saudade, no Oeste, foram expulsos de onde seria formada a Terra Indígena Guarani Araça'í sob alegação de que as terras não lhe pertenciam, e aguardam temporariamente a demarcação em Toldo do Chimbangue. 

Morro dos Cavalos, em Palhoça, na Grande Florianópolis, teve a terra recentemente demarcada mas vive sob constante ameaça. A comunidade é alvo frequente de ataques, inclusive pela retomada da ação de jagunços, e os índios vêm recebendo ameaças de morte por parte de proprietários que não aceitam entregar suas terras. A aldeia, pela qual passa a BR-101, sofre a pressão da especulação imobiliária nos terrenos, por serem próximos à praia.

O Morro dos Cavalos começou a ser ocupado pelos índios aproximadamente em 1930. Ao lado do Morro fica a baixada do Massiambu, onde a história apontava a existência, no século 16, de uma importante aldeia guarani. A mesma que, em 1516, recolheu os primeiros homens brancos que viveram em Santa Catarina: os náufragos da expedição de Juan Diaz de Solís.

Os guaranis foram um dos primeiros povos com os quais os europeus tiveram contato ao chegarem na América, há 500 anos. Era uma extensa e poderosa nação indígena, talvez somando dois milhões de pessoas. São hoje a etnia mais numerosa no Brasil, com cerca de 51.000 índios distribuídos em 7 estados. Apesar disso, é também uma das que tem seus direitos menos reconhecidos pelo Estado, principalmente o direito à terra. Em todo o Brasil, ainda faltam ser reconhecidas 95% de suas terras tradicionais, havendo uma média de menos de meio hectare por Guarani.

A presença indígena em Santa Catarina remonta a períodos muito anteriores à presença dos colonizadores. Após a invasão espanhola e portuguesa, no século 17 os índios "desapareceram" das praias catarinenses – levados como escravos pelos bandeirantes, mortos nos ataques dos paulistas, pelas doenças ou fugidos para o interior.

Por volta de 1920, grupos de guaranis começaram a chegar à beira do mar catarinense, tentando estabelecer-se nas mesmas áreas geográficas onde ficavam suas antigas aldeias, em 1500.

Os governos provinciais e estaduais reservaram duas terras indígenas no início do século 20. Muitos grupos permaneceram vivendo fora desses aldeamentos. A partir de meados da década de 1970 começou um processo de retomada de terras indígenas. 

Para os Guaranis, a questão da terra é crucial. Além de ter sua cultura ser calcada no cultivo agrícola, mais do que um simples espaço ocupado por um grupo ou de onde se retira sua subsistência, é na terra em que se produz toda sua cultura.

Tekoha é como o povo Guarani se refere a sua terra tradicional. A palavra Teko significa: modo de ser, modo de estar, sistema, lei, cultura, norma, comportamento, hábito, costume. Assim, é no Tekoha que os Guarani realizam seu modo de ser.

 

Fontes e mais informações:

www.guarani-campaign.eu 

anovademocracia.com.br/no-29/502-a-terra-guarani-e-inegociavel

pib.socioambiental.org/es/noticias?id=163321&id_pov=80