Guaranis, Kaiowás e Terenas - MS


Uma das etnias em que a luta pela terra é mais grave e violenta, os Guarani-Kaiowá provocaram uma grande mobilização nacional através das redes sociais em 2012, quando foi publicada a carta de uma comunidade que declarava a “morte coletiva” de seus 170 homens, mulheres e crianças, após receberem uma ordem de despejo pela Justiça. 

Uma soma de fatores com gênese na perda de suas terras têm levado os Guarani-Kaiowá a altos índices de suicídio, inigualáveis na América Latina. Somam-se a isso um número considerável de mortes provocadas por conflitos com fazendeiros.

Os Guarani-Kaiowá vêm sendo expulsos de suas terras há séculos, com o avanço da colonização e do agronegócio. No Mato Grosso do Sul, já ocuparam um território de cerca de 350,000 km² e, no governo Vargas, foram confinados a apenas 8 reservas.

Acossados em pequenos pedaços de terras, com menos de um hectare por pessoa, a situação de superpopulação gera condições de vida precárias e deflagram processos desestruturação do sistema social guarani, pautado na economia de reciprocidade.

O exemplo mais grave é das reservas de Dourados, Amambai e Caarapó – que juntas somam 9.498 hectares e abrigam mais da metade do total de 45 mil Guarani-Kaiowá residentes no Mato Grosso do Sul. Um grande número de famílias é levado a viver em acampamentos às margens de rodovias.

Em muitos casos, as comunidades aguardam há anos a tramitação na Justiça de processos de disputa com latifundiários. Muitas das comunidades estão em luta para reaver suas terras ancestrais nas “retomadas”, terrenos de ocupação onde resistem às investidas dos fazendeiros da região, que frequentemente empregam pistoleiros para defender suas propriedades.

São constantes os conflitos violentos, os quais culminam em massacres com números frequentes de feridos e mortos, inclusive mulheres e crianças. O último caso noticiado, denunciado internacionalmente, ocorreu em meados de junho em Caarapó, a 273 km de Campo Grande: um agente de saúde indígena de 26 anos foi morto num cerco feito por cerca de 70 produtores rurais a um terreno de retomada, ocupado por 100 índios dois dias antes de sua morte. Neste episódio, outras cinco pessoas foram baleadas. 

São comuns também estupros às mulheres e tiroteios às casas indígenas. Além do racismo e discriminação de que são vítimas, sofrem ainda assédio e perseguição da polícia. Estima-se que mais de 200 guaranis na prisão com pouco ou nenhum acesso à auxílio legal e intérpretes. Muitos recebem condenações severas por infrações pequenas.

Cercados por plantações de cana e soja e criações de gado, a devastação da floresta trazida pela exploração do agronegócio inviabilizou a caça e a pesca, e a escassez de terras dificulta o cultivo agrícola familiar, que é base da cultura guarani.

Muitos dos índios acabam se tornando empregados dessas mesas lavouras que ocupam seus territórios ancestrais, ou em destilarias de álcool, submetidos a condições de superexploração e trabalho escravo. Em 2007, a polícia interditou uma destilaria onde 800 índios trabalhavam e viviam em condições sub-humanas.

Os que saem para este tipo de trabalho, ao retornar, introduzem na aldeia o alcoolismo, gerando um aumento de tensões internas e o consequente acréscimo da violência entre os índios.

Recentemente, a gravidade dos conflitos entre índios e latifundiários na região levaram à intervenção da Força Nacional de Segurança, a pedido do governo de Mato Grosso do Sul. Algumas das terras tiveram o processo de homologação acelerado pela presidente Dilma Rousseff, antes de ser afastada pelo processo de impeachment. Tal agravamento é considerado como manobra de interesses do agronegócio local, fortemente ligado ao governo interino de Michel Temer, para intimidar e expulsar ilegalmente os Guarani-Kaiowá de sua terra ancestral. 

 

Fonte e mais informações:

www.survivalinternational.org/tribes/guarani 

www.funai.gov.br/index.php/ascom/1947-historia-e-cultura-guarani